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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

(Crônica): Má companhia


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Não sou uma boa companhia.

Tenho problemas, sei disso!

Confesso que gostaria de deixar-me de lado.

Encostar a mim mesmo em um canto e deixar-me ali, sem que ninguém veja. 

segunda-feira, 9 de março de 2015

(Poema): Que saibam todos

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Queria apenas deixar registrado que amo teu sorriso. Amo sim.
deixar evidenciado a minha paixão por teu jeitinho, por teu falar, teu andar.
ficar claro que não há condições para o meu amor.

Queria que todos soubessem o quanto você é importante para mim,

preciso que o mundo inteiro seja testemunha disso,
é necessário que não exista dúvidas sobre a minha entrega, a minha sujeição,

Para que, mesmo daqui a anos e décadas,

quando nem eu mesmo der conta deste momento,
eu tenha muitas pessoas que atestem que era verdade,

Era verdade que, quando o meu espírito ainda habitava e governava meu mundo, e que,

quando minha consciência não era apenas uma vaga lembrança
e eu podia responder por mim mesmo,

eu deixei registrada a minha paixão sem concessões por ti, minha filha.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

(Mini-crônica): Surpresas e,... surpresas!

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Te juro, pegou-me desprevenida.

Tenho o imenso defeito de tentar fazer previsões a todo instante. Tenho pavor em ser surpreendida com algo, ou seja, detesto surpresas.

Logicamente, as surpresas ruins são as que me preocupam.

E porque?

terça-feira, 5 de agosto de 2014

(Mini-Crônica): Uma música diz tudo?

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Existe essa coisa de "nossa música"? Isso ainda seduz alguém?

O que fiquei sabendo foi algo diferente. Não se tratava de "nossa música". Porque, para essa pessoa, sequer houve o "nossa", apenas a música.


segunda-feira, 30 de junho de 2014

(Crônicas e Poesias): Perguntas diletantes para não achar respostas


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O que posso dizer de minha infelicidade?
A que posso compará-la?
Como posso contextualizar minhas desventuras?
Como fazer-te saber as agruras de viver sob minha pele?


sexta-feira, 6 de junho de 2014

(Mini crônica): Troca de energias

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Ela espera todos os dias na entrada do Metrô, observa a todos que chegam. Sempre está por ali, sempre observando quem passa. Mas, não observa, por que não é uma bisbilhoteira. Apenas olha as pessoas para ver se identifica o rosto de quem está esperando. Não, não observa ninguém, não nota ninguém. Seus olhos se desligam de cada boca, de cada cabelo, de cada olho. Para ela, basta que veja a quem o seu cérebro irá lhe dizer: "Ali, é aquele", e pronto, todo o resto, que já não tinha importância, passa a ter menos ainda. Nunca se sentiu observada, nunca pensou que alguém pudesse perceber que ali estivesse, quando uma coisa lhe empurrou a cabeça. Não fisicamente, não, de fato. Mas, sentiu como se fosse. Quando olhou havia alguém passando à sua frente, que por instantes olhou para ela, e a comunicou que, sim, ela era observada. Era notada. E esse alguém, através desse olhar, lhe disse "Sei que você está esperando".


sexta-feira, 23 de maio de 2014

(Cronicas e Poesia): [Re] Publicação de livros online (sob demanda e ebook)


Bom! Remodelei o Blog. A versão anterior já estava bem batida e até eu próprio já havia enjoado.

Também resolvi vincula-lo a um nome próprio, mais adequado ao que estava escrevendo. Agora é www.pensamentoseliteratura.com .

quarta-feira, 12 de março de 2014

(Devaneio): Outro sonho ou insanidade?

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Agora que tudo foi por água abaixo. Que as ilusões se confirmaram como tal, ou seja, não passam de pífios pensamentos e desejos e nada poderei um dia tirar disso.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

(Mini-crônica): Atrapalhação

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Nem sabia como contar o ocorrido.

É atrapalhada como ninguém. Por quantas vezes já brigou com seu namorado por conta disso?

Sabe-se lá. Dúzias de vezes. Na verdade, tinha muitas dúvidas sobre o motivo de ainda se manterem juntos se a sua principal característica era essa (ao menos em seu pensamento, pois não se dava conta de "sua" principal característica de fato, endeusada por seu namorado, a saber, sua beleza. Essa sim, era o que enlaçava seu amor e o impedia de sair de perto dela).

A verdade era que andava bem tranquila naquele dia. Pensamento solto, cabelos ao vento, aproveitando os últimos raios de um outono totalmente descaracterizado por sua quentura. Mas, estávamos em meados de junho e o inverno reclamava o seu espaço no calendário, já tendo chegado ao sul do país.

Talvez por que aumentasse muito para si mesma a importância dos incidentes em que se via metida, não se dava conta do estontear que provocava em cada lugar que passava. Não percebia que boa parte dos tantos problemas era justamente advindo dessa turbação de pensamentos e vistas a que se viam atingidos homens (e muitas mulheres) que a cercavam.

E não poderia ser diferente neste início de tarde, ainda quente, mas com uma leve brisa outonal.

Estava bem adiantada à entrevista no estágio. Marcou esse compromisso há um mês e quase não dormiu na sua expectativa, dia 19 de junho. Repassou todas as dicas de professores e amigos, simulou a entrevista com o namorado, que, por ser 3 anos mais velho, já havia passado por aquela mesma entrevista anos antes.

Tudo estava em conformidade. Usou sua roupa mais discreta. A calça social mais folgada possivel, a blusa mais solta, a maquiagem mais leve. Os cabelos deixou solto, depois de inumeras tentativas de mante-los presos.

Resolveu parar em uma cafeteria próxima. Para tomar um chá que a acalmasse. Nem pensar café, que comprometeria seu hálito e a deixaria inquieta.

Claro que, atrás dela, sutilmente, quase que de repente, formou-se um pequeno séquito de admiradores. Alguns até entraram na cafeteria, Ficaram bisbilhotando o local, mas foram embora. Um deles, mais obstinado, resolveu pagar para poder contemplar melhor aquele belo espécime feminino. Resolveu tomar um cafezinho a duas mesas da dela. Nada especial, apenas sucumbiu a um acesso de leve voyeurismo.

Foi quando, de repente, sem nenhum aviso aparente, ela levantou-se. Subitamente para todos, menos para ela, que sempre justificava tais arroubos com uma lembrança repentina e, assim que seu cérebro dava conta de tal lembrança, acionava pernas e braços e punha-os a agir.

Dessa vez lembrou-se que estava com vontade de fazer xixi. A tensão pela entrevista quase havia retirado tal necessidade, mas ao sentar e colocar o chá na boca, novamente sobreveio tal questão fisiológica, que passou, em questão de décimos de segundo, de simples lembrança a necessidade premente, quase vital.

Ele, que a admirava como uma flor que acabara de cair da árvore a um passo de distância, e via o cair leve e delicado dessa flor, ao sabor do vento mais do que da gravidade, assustou-se sobremaneira com o súbito pulo dela, a ponto de deixar cair a xícara de café no colo, com todo seu conteúdo ainda intacto, o que o fez soltar um berro, dirigido não à xícara ou ao seu acidente, mas à bizarrice do pulo dela:

- Caramba. O que aconteceu aqui?

Ela, preocupada em cumprir com seu desejo fisiológico, nem percebeu o grito ou o apuro por que passava o moço da mesa ao lado, tentando refrescar suas partes pudendas e o problema da mancha bem naquele lugar. Enfim, mesmo com dores e ardências, pensava ele, mereço isso, quem mandou parar aqui somente para admirar uma mulher?

Quando ela voltou do banheiro, mais aliviada, também não notou que o moço do acidente não estava mais por ali, apenas observou que faltava pouco tempo para a entrevista. Por sorte o chá já estava morno e pode tomá-lo quase de uma vez e sair rapidamente, não sem pisar no pé de outra pessoa que aguardava ser atendido na fila do caixa, este sim o único acidente que julgava haver cometido naquele dia.

Quando chegou ao imenso prédio onde passaria pela entrevista, resolveu antes fazer um minuto de meditação a fim de entrar tranquilizada e não agir de sobressalto em nada. Apagou de sua mente tudo que pudesse lhe atrapalhar.

A secretária do gerente que a entrevistaria pediu para aguardar um pouco, pois o gerente estava atrasado do almoço, mas chegaria em alguns minutos, o que, de fato, ocorreu.

Chegou um homem apressado, aparentando quase 40 anos e bem alto. Entrou sem nem olhar para ela. Apenas explicou à secretária que teve de passar rapidamente em uma loja das proximidades e comprar uma calça, pois havia derramado café na outra. Sem maiores explicações entrou em sua sala pedindo um café para a secretária.

Um ou dois minutos depois a secretária sai da sala do gerente e a autoriza entrar.

Mesmo com todo o nervosismo da situação, ela procura agir calmamente e se dirige à porta.

Nesse momento, ainda confabulando-se sobre o incidente, sobretudo quanto ao fato de nos meter em situações constrangedoras desnecessariamente, o gerente vê sua porta se abrir e quem entra é, nada mais nada menos, que a beldade, a flor que virá cair suavemente há pouco e que causou sua queimadura na coxa.

O susto foi tão grande que levantou-se de supetão, esquecendo-se a xícara ainda cheia na mão. Dessa vez o grito foi ainda maior e ainda mais incompreensível para ela.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

(Devaneio): Em 5 minutos

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Comprei um computador novo. Quando ele chegar, talvez não perca mais esses dez minutos que meu velho amigo demora para se aprontar e deixar-me utilizá-lo. Tempo que ele necessita para estar certo de que tudo está perfeito e que poderei prontamente espalhar as minhas ilusões e ainda que, ele próprio, não será o motivo, para que isto tudo soe assim, como não poderia deixar de ser, medíocre.
 
Com o novo, talvez perca somente cinco minutos.

E nos últimos cinco minutos. O que poderia ter feito? O que poderia estar fazendo, para além do que já fiz ou esteja a fazer?

Para além de meus desejos. De minhas aflições. Das angustias que carrego. O ganho desses cinco minutos me levaram a querer mais agilidade de meu computador. Sempre é possível ganhar mais cinco minutos adicionando mais memória, trocando um processador antigo, uma peça defasada. Mas, optei por aposentar o meu pequenino.

Mas, o que farei com esses cinco minutos?

Ficarei mais  um tempo com o olhar perdido, olhando pela imensa vidraça que está à minha frente, observado os pedrestes que passam, desejando cada bela mulher rebolante, odiando seus companheiros, desprezando os que aparentam felicidade, dando corda a essa meia inveja desprezível?

E, além disso, o que farei nos cinco minutos que ganharei?

Posso ficar orando. Posso ficar suplicando que venham idéias para escrever, tópicos para divagar, temas de interesse pessoal ou coletivo. Posso ficar imaginando o que seria se eu fosse um gênio da escrita.Um verdadeiro escriba. Cheio de estórias e história, com um passado repleto de conquistas intelectuais e com um mar de curiosidades a compartilhar. Talvez cinco minutos sejam necessários para eu mesmo acreditar nisso, pois, um produto precisa primeiro ser comprado por seus vendedores, para depois esses repassarem a seus clientes. Preciso então, em cinco minutos, providenciar a compra de  mim mesmo, cuidar da embalagem e do envio de minhas idéias até onde serão, de fato, utilizadas.

E o que mais? No que mais me aproveita os cinco minutos?


Há alternativas. Sim, até a mentes medíocres há alternativas de felicidade em cinco minutos. Aliás, quem sabe, mentes medíocres são muito mais felizes em cinco minutos do que suas congêneres geniais em um dia inteiro, pois, o vácuo, além de abrigar o nada, permite infinitas possibilidades. Um pote cheio é menos útil que um vazio.

Então, na minha mediocridade, posso cuidar para esvaziar o pouco que resta em minha de pretensa sapiência. Posso esvaziar minha mente e deixar-me vagar por seu vácuo...
 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

(Excerto): Prostituição [de "Desconexos ou Sem Pé Nem Cabeça"]

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Prostituição


   Selene era uma moça sonhadora. Disso ninguém duvidava. De sonhos alimentava sua alma. Por vezes achava que seu próprio corpo era unicamente sustentado por isso. De ilusão passava as manhãs e fartava-se de pensamentos no almoço.
Ao final da tarde já estava novamente faminta, tendo gastado todas as suas reservas de esperança no transcorrer de dureza do seu dia. Recompunha seu estoque ao botar a cabeça no carcomido pedaço de espuma que chamava de travesseiro. Retornava então a seu mundo real de devaneios e experiências oníricas.
E sempre sonhava com o mesmo belo príncipe. Tão belo que sentia vontade de chorar ao vê-lo (e quase sempre chorava mesmo). Mas, chorava de felicidade, porque, nos sonhos, ele era somente dela, fora feito para ela e com ela viveria para sempre.
Era ele quem sempre afirmava isso.
Porém, a beleza era tamanha, que a amedrontava! Como pode o belo ser causa de tanto medo? E não era medinho sem explicação. Transmudava em pânico, muitas vezes. Ela o via e chorava copiosamente, sempre temendo que aquilo lhe escapasse pelos dedos, pois lhe parecia líquido.
A felicidade é fluída, a sentimos enquanto não nos escapa.
Passava a noite sonhando com ele. Semanas, meses e anos. Havia muita cumplicidade entre ambos em seu sonho, como se os dois sonhassem um com o outro, o mesmo sonho.
Mas, havia uma tristeza nesses sonhos, nesses pensamentos, nessas esperanças. Por mais real que fossem as sensações, havia uma certeza velada, uma verdade oculta, mas sabida. Essa coisa inexorável de que tudo aquilo nunca passaria disso mesmo, ou seja: Um sonho. Por isso a fuga, a cumplicidade, a sinceridade, que ela mantinha consigo mesma a esse respeito.
A fim de evitar se constranger, a fim de prevenir decepções, se mantinha fiel a si mesma, mais do que aos seus sonhos e ilusões. Eles eram somente alimento de sua alma. Frutos cultivados no único terreno que a pertencia. Aí os mantinha sempre frescos, pois a todo instante precisava de um. Quando menos pudessem esperar lá estava ela, se banqueteando de esperanças, de sonhos, de ilusões...
Mas, eis que a vida corre muito rápida, principalmente para uma menina que se alimenta de sonhos. Um dia se olhou no espelho e viu-se moça, e quando menos desejava, tornou-se uma mulher. E não uma mulher qualquer.
Os que a cercavam comemoraram esse desabrochar, uns por puro deleite de vê-la, outros por puro desejo de tê-la, e ainda outros por pura necessidade de usá-la, de forma pragmática.
Afinal, certamente, uma moça tão bela, nunca iria passar fome, e nem sua família. Decerto que não!
Por um tempo, Selene se traiu. Permitiu-se a tanto. Pensou em seguir seu príncipe, em entregar sua inocência a ele. Pois, por incrível que pareça, do nada, o tal príncipe havia se materializado. Estava ali. E se não foi, se não seguiu tal impulso, foi porque não lhe pediu, não lhe tentou, não lhe seduziu. Mas foi-se. O príncipe. Foi embora. Tão simples e repentinamente como surgiu.
Uma moça pobre como Selene não pode se iludir a ficar com moço tão formoso. Um príncipe afinal.
Então Selene optou pelo que lhe foi pedido. Por aquele que, de fato, a tentou, que a seduziu. E a ele se entregou. E lhe concedeu sua inocência, porque assim ainda era, embora com pouca vontade. Essa que, apesar de mínima, era suficiente para tão breves sentimentos, prazeres tão efêmeros.
E no começo foi assim. O fazia por questão de sobrevivência. Porque era o que esperavam dela. E o que mais poderia fazer para ajudar os seus? Por acaso poderia ser advogada, ou engenheira, ou médica. Talvez pensasse em ser professora, quem sabe? E talvez conseguisse, talvez pudesse ensinar sua trajetória de vida. Um dia, talvez!
E, no começo, os clientes eram gentis. E eram limpos, pelo menos. E faziam com cuidado, a pegavam com zelo, afastavam devagar suas coxas, se imiscuíam com cerimônia no vão deixado por suas pernas, apalpavam seu sexo como quem tem uma taça de cristal na mão, como se fosse um graal de sagrada delicadeza e raridade infinita.
E assim ela se parecia. Um bem precioso a ser usado com extrema parcimônia, a fim de mantê-la como que intocada, para um próximo uso.
E esse cuidado todo durou um tempo, não suficiente a ponto de achar que estava segura, definitiva, em um lugar seu.
Ela chegava bem cedo, se trocava e já partia para o ofício. No começo havia vários clientes. Todos marcados com antecedência, todos ávidos pela novidade. E vários poderiam ser rejeitados, alguns o eram, outros eram aceitos por pena. Quantas vezes aceitou somente por dó da tamanha alegria daquela pessoa ao vê-la desnuda.
Mas, poderia ser servida por quem lhe aprouvesse. Não que sentisse prazer. Não que esses escolhidos pagassem mais. Pelo contrário. Mas, sentia que sua situação, sua culpa, sua prostituição diminuísse um pouco se usasse a prerrogativa de recusar, por motivos pessoais, por motivos não necessariamente expostos, e, principalmente, nem sempre vinculados a quanto o sujeito pudesse lhe pagar.
E não é assim que agem as ditas mulheres de bem, ou as normais? Não abriam suas pernas e ofereciam sua vagina e demais orifícios a somente quem lhes aprouvesse. Talvez essas, ditas “mulheres de bem”, ponderassem uma relevância bem maior à parte financeira, fossem bem mais condescendentes, em relação a furtivas e obscuras ofertas em dinheiro ou bens ou serviços, do que Selene, a prostituta, no alvorecer, no desabrochar, no conquistar de sua vida profissional.
Sim, poderia se sentir bem menos prostituta ao agir assim.
Mas, com o tempo, sua vida foi se enchendo de necessidades, ora uma comida diferente, ora uma roupa diferente, ora uma moradia melhor, um carro, outro carro melhor e mais, e mais. E essa prerrogativa teve de ser posta de lado. E a questão financeira passou de relevante para crucial.
E, com isso, a prostituição ampla, geral e irrestrita tomou conta de sua existência. E a falta de prazer passou a ser regra, como única forma de sentir-se ainda limpa e imune.
Até que os clientes que sobraram, nessa busca de dinheiro e desprazer, eram os porcos que hoje a impregnam. Até que...
Até que decidiu: Já que tem de ser assim, então que se aguente um porco somente e retorne a meus sonhos, retorne a meu príncipe, a meus devaneios impossíveis.
E foi assim. Desde então, e até hoje. E assim será. E seu príncipe a visita desde então. Em seus sonhos. Nunca mais se materializou. Não mais. Onde andará? Será que ainda é tão belo quanto em seus sonhos? E se a encontrasse? Será que ainda se interessaria por suas pernas flácidas, suas nádegas encovadas e seus seios caídos? Ainda se lembraria do esplendor de Selene, em sua primeira e única aparição, quando ela transbordava leite e mel e seu suor era como perfume adocicado, e era como um banquete na visão de tristes e desolados caminhantes vindos de desertos escaldantes?
Aquela lembrança ainda poderia encantá-lo e, tomado por ela, ele a obrigaria a largar tudo e segui-lo. E ela, mesmo que com muito mais a perder do que antes, teria forças para assim fazer?
Melhor não. Melhor permanecer assim. Melhor continuar a atender os caprichos do seu porco, bendito e salvador. Aguentar seu corpo balofo, ensopado de suor, seu fedor, seu jeito grosseiro, suas mãos ásperas amassando o pouco de dureza que resta nas carnes de Selene. Afinal, sempre é por pouco tempo. Sempre haverá a esperança de que isso acabe. E depois...
Depois, Selene poderia continuar a sonhar tão-somente. Tão somente com seu príncipe. E voltaria a ter dezessete anos...
   Dezessete anos para sempre.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

(Devaneio): Desejo primevo

In http://hinata-hajime.deviantart.com

Peço pouca coisa. Ou quase nenhuma, dependendo do que você esperaria, dependendo do que você poderia, dependendo do que você gostaria de dar-me.

Peço acolhimento. Peço compreensão. Peço um ouvido (se acompanhado do restante de você. Muito melhor!).

O teu colo onde possa repousar minha cabeça. Escutar teu coração, tua respiração. Sentir o calor de tua pele. Repousar na maciez de teus seios.

Peço que compreenda meu desejo por ti, desde que te vi, entrando por aquela porta. Poderia sentar-te em qualquer lugar, mas resolve sentar aqui, ao meu lado. Sendo assim, posso pedir-te.

Não tenho dúvidas que posso.

Peço permissão para te olhar. Não que já não tenha notado, desde o começo, tudo o que me interessava de fato. Mas agora, interesso-me por mais. Muito mais ainda quero olhar. Quero sorver os detalhes. Quero saber: Até onde, somente por ver-te, poderei aplacar o meu desejo?

Não quero falar, mas quero que perceba. Perceba isso tudo. Perceba os anos que me trouxeram até aqui, neste lugar, naquele momento que te vi entrar, e o que acende em mim o desejo.

Há toda uma história por trás. Uma pequena parte eu conheço. Vinte anos eu conheço. Pouco ao se considerar que tudo deve ter começado a centenas, senão milhares de anos atrás. É meu desejo primevo.

Desejo de uma fase inocente da minha alma. Desejo de criança antiga, maltrapilha, faminta, analfabeta e selvagem, mas que sabia querer, e sabia que queria você. Há anos!

E de tanto querer-te em dezenas e dezenas de rostos e corpos, e nunca conseguindo, acabou por metamorfosear todos os rostos semelhantes em você. Você passou a ser todos os rostos que te assemelham, sem que eu nunca mais visse o modelo que a originou.

E costumo tecer pensamentos brincantes, como se fora possível. Pensamentos que apenas servem para quantificar o meu desejo. Para provar que te desejo antes de qualquer coisa. Troco coisas e pessoas sabidamente mais valiosas e belas, sem nenhum arrependimento, troco-as, todas juntas, por um breve período ao teu lado. Gosto de brincar com tais permutas, mesmo sabendo que nada disso me pertence e que não as posso dispor. Talvez por isso as troque com tanta prontidão.

E é assim que funciona nos momentos de solidão. Naqueles breves instantes que somente minha consciência pode me penalizar, somente eu mesmo posso saber dessas loucas vozes, dessas loucas permutas, dessas insanas vontades.

A cada novo dia, mais desejo por tais momentos e a cada novo dia os tenho menos para mim. Como não poderia deixar de ser, aumenta a raridade, aumenta o valor. E quanto mais os tolhem de mim, mais os quero em minha rotina.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

(Devaneio)(Poema): A Tempestade e o Albatroz



A Tempestade
Ilusão de alguém, que se pretende passar por um deus, e fantasiar e transformar em realidade tal fantasia, mais que somente uma fuga.
A fuga é o nosso encontro. Quem sabe, de onde me perco você possa achar algo. Você mal sabe o que te angustia, o que te atormenta. Não pensa nisso. Não deseja ter por perto a minha imagem, que possa te lembrar o encontro, de ti, de mim, das coisas.
Tormento para você é ter que dar explicações. Explicações que não saiba dar, nem onde encontrar, ou se existem, pois você vive ao sabor da tempestade, sem nada pedir-lhe, senão que não pare, pois, enquanto o vento soprar, você se mantém suspenso e não precisa pousar e ver a destruição que a tormenta causou.
Enquanto estiver nos ares, pode refugiar-se nas brumas, no véu de nuvens e até receber um ou outro estilhaço no corpo, nada que o prejudique muito.
Mas, e nós que ficamos nesse chão liquefeito, abaixo da linha das tormentas? E nós que temos que contabilizar as destruições a cada vez que o vento resolver revolver nossos despojos? E nós que a todo o momento, quando o silvo do vento cessa, pensamos que o véu de nuvens irá se esvair e pensamos que, finalmente, nosso sol se mostrará, e baixamos a guarda e vamos para a rua, para recebermos nova lufada de desgraça e termos que refazer aquilo que sequer foi refeito, depois da ultima destruição?
E nós, o que esperamos?
Esperamos ter de novo a alegria de outros dias, quando ainda achávamos que o problema não era sério, quando nos achávamos protegidos por nossa dignidade, eleitos que fomos para tão importante e respeitoso mister? Esperamos ter outra vez o que nos foi roubado, a nossa alegria, a nossa fantasia, a nossa esperança,
A nossa ilusão?
O Albatroz
Sou então o ilusor ou o iludido? A quem pretendia que me seguisse, que me fosse meu albatroz, eu, na verdade tornei-me o teu. Sou o perseguidor, sou aquele que traz angustia e sofrimento.
Não seria assim, não deveria, pelo menos. Não deveria ser por tal caminho que eu encontraria minha felicidade. Não poderia ser dessa forma que eu reteria aquela parte de minha vida destinada à preparação.
Preparação para o meu albatroz, pois sou peixe cansado das profundezas e estou agora na superfície, estagnado, com pouquíssimo movimento, presa fácil.
Mas, antes do bico salvador e redentor, que irá transportar-me a outras oportunidades, no ultimo piscar de olhos, quando enxergava a luz embaçada da manhã, e quando via ao longe um despencar de algo branco em minha direção, ao reabrir os olhos, vejo-me agora em outra vastidão, não mais líquida, não mais bruxuleante de raios de sol, mas transparente, e agitada, vejo-me em penas e bicos e asas.
O susto foi tão grande que despenquei das alturas, caindo no muro fluído que ocupava toda parte de baixo dessa nova existência.
Agora não sabia mais como sair dali. Olhei apenas para o peixe que me encarava espantado, talvez não acreditando no que via, ou na sorte que tinha ao ter como predador tão atrapalhada criatura. E não quis dar segunda chance ao azar, entrando nas profundezas, fazendo-me sentir como se uma parte de mim se ausentasse de repente.
Nunca mais vi aquele ser.
Mas, tinha outras preocupações. Como sair daquele estado deplorável e retorcido. Coisa fácil, pois, ao abrir as asas e por-me em pé, repentinamente, meu corpo assumiu as funções. Reconheceu-se por si só e, de uma só vez, alcei vôo. Passei a ser um espírito alado, passei a estar em uma posição que não me pertencia, passei a ir a lugares que antes não queria ir.
Tornei-me meu e teu albatroz.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

(Poema): Tirar-te de mim






Sentir sem transbordar e ter sem reter.
Preciso  perceber os exageros em minha vida,
notar aquilo que me ultrapassa, que me transpõe,
como ver-te como algo fora de mim,
mantido em suspensão.

Se mantenho-te dentro de mim, 
nunca poderei observar-te.
Para vislumbrar a beleza de Sua criação,
Deus a expeliu de Si, e a manteve distante,
o mais que pode, apenas para contemplar.

E, se não posso dizer-me ou fazer-me Deus,
mesmo assim, concebi-te, e agora, como é duro
tirar-te de mim. E enquanto estiveres aqui dentro,
nunca poderei ver-te, e espelhar-me em ti, ou não,
apenas ver-te, deixar-te seguir teu destino.

Enquanto estiveres aqui em mim, vejo-te,
mas, envolvido pelas brumas de meu próprio ser,
tu és disforme, pois não te amoldas à minha armadura,
não te envolves bem a minha própria névoa.

Concedam-me forças para tirar-te de mim.
Preciso sair-me de repente, e somente assim,
após essa intensa e única convulsão, poderei ver,
eu somente a mim e tu somente a ti.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

(Devaneio): Mais um desassossegado


Também tive grandes ambições e sonhos dilatados, talvez semelhante ao carregador ou ao filho da costureira. Semelhante a eles meus sonhos também não foram providenciados pelo destino e muito menos tive força de os perseguir. Assim, a eles sou exatamente igual.

Também advogo o direito de poder lavar meu destino, como lavo meu corpo, como retiro o resíduo de minhas partes mais intimas e sujas, assim como a água e o sabão as torna novamente utilizável, assim como isso, poderia também lavar esse destino, retirando dele essa sujeira que o impregna. Mas, talvez por não conseguir localizar as entranhas onde se incrustou tal sujeira, ela deva ser vivida até o fim, até que a sua sepse tome conta da vida como um todo e, como um parasita mata seu hospedeiro, ele próprio, destino, assim o faria.

Também sinto saudades de tudo, até do que não existiu, sinto saudades até da própria nostalgia. Daqueles momentos que julgava idílicos e que, na minha inocência, achava que conseguiria em um lugar, ou com uma pessoa, ou com uma realização, ou com um prazer. Sinto falta disso. Sinto saudades de quando acreditava-me assim, sinto falta de quando me julgava velho e sábio e sinto falta de quando era apenas uma criança. Qualquer coisa é melhor que esse vazio de certezas, esse esperar eterno, esse resfolegar sem sentido e direção, esse ruminar, ir e vir, o gosto da mesma comida na boca, a mesma sensação na carne. Hoje, até o orgasmo me parece tedioso. Sinto falta e saudade do que tive ontem, do gozo que senti há quinze anos. Como se o corpo que estremece hoje nada tenha a ver com aquele estremecido em era passadas.

Também não sei o que sinto, o que já senti, ou o que quero sentir. Talvez o esteja sentido agora, enquanto escrevo. Talvez o extremo prazer esteja aqui nesse momento, nessa realização. Ou esteja vibrando aqui ao meu lado, fremente e pronto para ser sorvido. Talvez o que desejo sentir já esteja sentindo, falta-me apenas o órgão sensor que o perceba. Falta-me o aparelho, o medidor, ou o catalisador para que esse rio de sensações aflua em direção a um mar hipotético ou somente salte para fora e produza a alegria que desejo.

Também sinto que vou endoidecer por vezes, tamanha a inquietação e tamanho o marasmo que se intercambiam, em bipolaridade  Apenas, também, endoidecer ali mesmo, não de loucura, somente atendendo aos batimentos ritmados de meu coração que quer fugir do corpo em terror ao que lhe pode suceder, quem sabe?

Também acreditava firmemente que somente pode apreciar um corpo nú alguém que estivesse vestido. Por tal crença tentava mostrar-me pelado para, talvez, aqueles que tão pesadamente se vestem pudessem ver-me, senão apreciando a beleza de formas, mas pelo menos atestar essa presença. Mas, percebi que não se pode impor uma nudez não desejada, principalmente quando, ao invés de prazer ou consternação, ela cause nojo e, por vezes, terror. Por tal conta que, melhor é mostrar-me nú somente a quem encontre-me assim, por procura ou por acidente.




quarta-feira, 3 de abril de 2013

(Mini-crônica): Guta




Guta tem problemas!

Percebi isso há muito tempo. Ela tem dificuldades de lembrar acertadamente. E isso a irrita.

Não a irrita o fato de não lembrar, mas sim de acreditar que lembra (porque ela somente lembra daquilo que quer e na forma que deseja no momento, mesmo que tais desejos mudem a todo instante ) e todos desconfiarem da sua lembrança, tão clara, porém somente em sua visão.

Por exemplo, Guta combinou ontem, sábado, que viria hoje, domingo, visitar-me. Porém, entre o ontem e o hoje, há um transcurso enorme de coisas que normalmente mudam o desejo, o ânimo, a necessidade ou a urgência de tudo na cabeça dela.

Graças a isso, esqueceu da combinação. Não da promessa da visita, mas sim do fato de ser hoje. Facilmente ela transporta o compromisso para amanhã, segunda-feira, e acha claríssima tal situação. Ora, então porque estou cobrando, na noite de domingo, uma visita prometida para a segunda?

Por esse motivo, Guta se sente muito cobrada e injustiçada. Tais cobranças são o motivo de sua extrema, e por vezes violenta, irritação. Então Guta resolveu se fechar. Não que tolere as cobranças, pois as acha injustas, mas tenta ignorá-las quando e o quanto pode, o que por vezes é muito pouco de fato.

Guta não tem tempo ou desejo firme para nada, exceto jogar ou fumar, de tudo que se possa imaginar de ambos os dois.

Por seu desejo ficaria assim, a noite inteira jogando, parando por vezes para um petisco ou outro, um cigarro ou outro, até o raiar do dia, até o cansaço lhe tomar as forças, e ver-se obrigada a cair em seu local escolhido para dormir, um colchão jogado na sala.

O dia para Guta poderia ser gasto parcialmente nesse lugar, parcialmente no banheiro, parcialmente comendo mais petiscos e guloseimas, parcialmente com novas partidas on-line. Nada mais a faria feliz por esses dias.

É! Guta tem problemas!

E esse hábito desregrado e até imundo fatalmente a leva a ter dores estomacais e constantes alergias. Mas, Guta não considera que seu comportamento a leva a tais sintomas. Imputa isso à cobrança injusta pela qual é constantemente massacrada.

Guta não quer estudar. Desde há muito tempo.

Acha que isso se deve a seu próprio caráter. À sua própria personalidade. Nada a faz perceber a correlação entre o consumo da maconha e o desempenho escolar, que despencou justamente após tal hábito. Claramente há uma forte relação, ao menos é o que se observa na realidade. Mas, para Guta é justamente o contrário, como todo viciado,  gosta de defender o seu hábito e tudo que o representa. Pensa que é melhor diminuir a si mesma do que jogar a culpa em seu vício.

Guta não quer ser ajudada. Ela não compreende a origem de seus problemas. Pensa que só lhe ássarão reprimendas e uma única recomendação passar por psicanálise e parar com o vício. E não é que não esteja somente despreparada para isso. É que ela crê piamente que esse não é o seu problema. Pelo contrário, talvez até tenha sido a sua solução. Como abandonar um grande amigo que só te dá alegrias?

Guta agora terá mais problemas, ou, quem sabe, encontrará a solução de todos eles?!

É que ela inicia sua vida profissional, já que a vida estudantil foi deixada à inanição e acabou por desfalecer. Será que no âmbito de um local de trabalho Guta se sentirá estimulada a cumprir compromissos e na forma exata em que foram assumidos, e será que melhorará a sua postura e a sua higiene, e será que diminuirá a sua irritação explosiva quando cobrada, e ainda, será que diminuirá a sua fissura pelo que a vicia?

Não sei. Mas, quem a ama aposta todas as fichas nisso.






segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

(Devaneio): Missão



Acabei de falar contigo. Chamo e, quando me atende, fico no vazio.

Gostaria de te falar tantas coisas. Compartilhar com você algumas expectativas, algumas idéias e esperanças. Mas, tenho medo de tua reação. Medo de azedar de vez tão tênue relação.

É preferível ficar assim. Guardo para mim as esperanças, já que, de tão fugidias, passaram a ser irrealizáveis; e as idéias, tão abstratas, tão pessoalmente arraigadas à minha alma, que soam como ficção aos outros; e ainda as expectativas, não solucionáveis diante de toda essa realidade de coisas.

E parece-me que nos falta a necessária cumplicidade. Essa não temos. Apesar de toda uma vida, não construímos ou perdemos essa relação.

Chego à conclusão que a missão, que desde pequeno pensei ter nesta vida, algumas vezes tão clara, na verdade se traduz somente em uma necessária continuidade.

Ou seja, existo apenas para dar continuidade. Em um futuro distante, há aquele de mim que realizará a dita missão e, para que ele exista, precisou-se de meu elo nessa sucessão de eventos. Precisa que eu exista para um próximo passo, e outro, e outro, até a conclusão da jornada.

Sou apenas um passo.

Assim, se justifica a idéia de reencarnações sucessivas. A maioria de nós é apenas um passo. Uma pegada na areia, entre o início, onde nos foi dada a missão, e o fim, onde a realizaremos. Como no recente filme que assisti, que por aqui nominaram como "A Viagem", onde todos apenas cumpriam, sem saber, o seu papel, a fim de que, em um mundo distante, alguém pudesse estar em paz. 

E esse alguém será eu mesmo?

Não sei, mas não posso então culpar-te. Afinal, você, apesar de nossa existência mútua, e de meu amor e de minha dedicação, talvez não seja o meu parceiro nesta jornada de milênios. Talvez, o meu parceiro de missão tenha se afastado a fim de apressar nossos passos. Talvez nem precise mais esperar por tantos séculos para entregar a nossa carta.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

(Devaneio): E o sol ainda vai amanhecer


Maluquice. Acabo de sair de um sonho. Ou pesadelo? Decerto que sim!

Estava, aparentemente após longa batalha, deixando-te partir para um outro alguém!

E era tão sólida e sem volta essa partida, pois assumia que o outro era infinitamente melhor que eu, reunia em si a beleza e a esperança que encantaria qualquer mulher, sei lá, diria um Gianecchini ou um Cruise qualquer!

Que mulher não se encantaria com tal possibilidade e não me largaria?

Mas, era sobre isso que eu divagava em desespero, no sonho; era sobre a derrocada da certeza que tinha que eu me derramava.

Pois, havia tal mulher! Você própria. E havia a minha certeza absoluta sobre isso.

E eu lhe dizia que, tão certo que o sol aparecerá pela manhã, eu tinha certeza que você nunca deixaria de me amar. 

Era algo irreal de acontecer, como se, em plena avenida Paulista, eu fosse surpreendido por um leão e, estático e sem reação, fosse pego e devorado.

Dizia-lhe que, mesmo que eu não soubesse ou meditasse a respeito, também eu não me via sem amar-te. Confessava que, às vezes, em tênues momentos, até pensava que não,  poderia imaginar-me com outro amor ou pensar que necessitasse de outra paixão, para, enfim, cair em mim mesmo quanto a tal absurdo. 

Sim, pois, nós dois, éramos como cúmplices de um crime. Carregávamos esse fato. Ambos os dois. Só nós sabíamos dessa história. Nossa história. Ela nos unia. Seria insano pensar que um de nós poderia denunciar o outro, se ambos iriam à fogueira.

Dizia-lhe isso, não para convencê-la a ficar, pois parecia que tal decisão já havia sido tomada de forma irremediável. Era um prato já comido. Qualquer retorno não traria de volta a integridade da situação anterior. Seria apenas, um vômito.

Mas, dizia-lhe para conscientizar-me da nova realidade. Para assegurar-me e conformar-me do fato que haveria de viver nesse novo e tenebroso mundo sem você. Principalmente para impor à minha razão e consciência a irrealidade das verdades absolutas, o caos em que estamos imersos, onde tudo pode acontecer, até você deixar de querer-me.

E acordei-me com esse terror.

E a vi ao meu lado. Você não notou as lágrimas em meus olhos e nem em meu travesseiro molhado, mas fiz questão de acordar-te levemente e perguntar-te se ainda me amava.

Talvez, em outra realidade paralela, um outro e desgraçado eu estivesse sofrendo com a realidade de meu sonho.

Mas, aqui e agora, teu "sim, pra sempre" trouxe-me à vida e à certeza de encontrar-me no chão, e, principalmente, a alegria de saber que, pelo menos para mim, por mais um dia, o sol ainda amanhecerá.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

(Poema): Frente e Costas



Vi-te de novo.
De novo tão bela.
De novo à minha frente.
De novo pertinho, e eu ausente.

Eu ausente de ti.
Você presente em mim.
Pra sempre marcada em minha retina.
Levo-te à minha frente.

Não olha pra trás.
Sai sem ver.
Sem notar que me leva consigo.
Às suas costas.

Segue-te meu olhar.
Segue-te meu desejo.
Marcados em ti se vão.
Leve-me às suas costas.



segunda-feira, 16 de abril de 2012

(Devaneio): Quarenta e cinco

 
Dá-me somente quarenta e cinco.
 
Minutos, horas? Um dia não te basta?

 
Talvez, quem sabe?

 
Pensas que estou brincando, que tenho tempo de esperar-te, que minha vida pode ficar suspensa até o momento que desejas?

 
Dá-me então somente esses quarenta e cinco que te peço.
 

Dias?
 
Pode ser. Em um mês e meio poderei refletir? Poderei ver se funcionam algumas teorias? Testar algumas idéias? É básico, sim é elementar que nos apoiemos no lado real. No que de fato está acontecendo por aí, ao nosso redor. Vermos como desabrocha uma flor, como são influenciadas pelo orvalho da manhã, ou como o sol de verão as pode fustigar, tanto como o gelo depositado em uma nevasca de inverno. Preciso desses dias para visualizar o que existirá quando suceder a partida do sol e as nuvens tomarem seu lugar, e depois, quando a ventania afastar o nevoeiro e, repentinamente, não encontrarmos novamente o sol para aquecer o gelo de sobre a flor. Penso...

 
Espere! Dirás que isso acontecerá em quarenta e cinco dias? Logicamente que não terás tempo para tanto desenrolar.

 
De fato, então dá-me os quarenta e cinco que te peço.

 
Ora, os terá, terás os quarenta e cinco que precisa. Anos, creio eu! Mas, com toda a certeza, não terás mais a mim ao final dessa idade.

 
Sinto dizer-te, que quarenta e cinco anos também não serão suficientes para vislumbrar com suficiente presteza a flor e seu desabrochar e o cair e o derreter do gelo de sobre os ramos. Sinto que também não poderei contemplar o levantar e o cair de nuvens e o findar da luz por sobre elas.

 
Então, estás dizendo-me que perco meu tempo, pois, se esse teu quarenta e cinco não se resume a anos, então está além de minha compreensão.

 
Não estás perdendo o teu tempo e compreenderás perfeitamente. Já me foi dado quarenta e cinco, deram-me em anos, mas preciso de mais, e também em outras grandezas, não somente em tempo, mas em experiências, em vidas, em conquistas, em vitórias, enfim em coisas que nutram a felicidade, mais que o tempo. Já me deste também um espaço de tua vida, mas então te peço mais. Dá-me quarenta e cinco, então. E vamos transformá-los em uma eternidade. Não podemos ficar juntos pelos próximos quarenta e cinco, sejam minutos, horas, dias, séculos, vidas, experiências, conquistas? Podemos marcar de nos encontrar aqui, sempre, e tu podes estar em meu lugar me pedindo por cinco, por vinte, por trinta e cinco ou por oitenta. Os quarenta e cinco que ganho de ti hoje te servirá de caução e poderá obtê-lo de volta sempre que quiser, desde que me inclua também. E te garanto que tendes muito mais aqui comigo, de forma que quarenta e cinco eras não serão suficientes para os gastarmos.