quarta-feira, 15 de agosto de 2012
(Texto): Sonho brasileiro
Apenas queria fazer um breve comentário sobre a matéria da BBC Brasil, "Brasileiros relatam lado amargo do 'sonho' americano", link: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/08/120814_imigracao_eua_personagens_pu_ac.shtml.
No artigo, temos o relato de uma jovem de ascendência sul-coreana, nascida no Brasil, mas criada nos EUA. Conta que sua familia decidiu sair do Brasil e tentar a sorte nos EUA, quando ela tinha 2 anos, e todas as agruras que passou até conseguir a desejada cidadia americana. Também cita um brasileiro que foi para os EUA, com visto de turista aos 14 anos, e tudo o que passou até o momento.
Para ambos, a cidadania americana poderia ser confundida com o "sonho". Mas não é. O sonho, na verdade, é a realização pessoal e profissional e o reconhecimento de seu esforço mediante a sonhada ascensão social.
Tratam-se de pessoas especiais, pessoas decididas a atingir seu sonho pessoal, que não fogem ao desafio e aos obstáculos que a vida lhes impôs. Se não conseguiram plenamente atingir todo o seu potencial, certamente não foi por falta de iniciativa própria, e, com o que conseguiram, podem se intitular vencedores, com certeza.
Porém, diante do que li e da atual realidade do Brasil, eu posso dizer, sem sombra de dúvidas, é muito, mas muito mais fácil para um brasileiro atingir esse "sonho americano" aqui no Brasil.
Porém, digo e repito, na atual realidade. Claro que, há vinte ou trinta anos atrás não se podia dizer isso. Àquela época não havia as diversas bolsas-familia da atualidade, as bolsas publicas nas faculdades particulares, a politica de quotas nas universidades públicas, os muitos concursos públicos e as muitas outras coisas que, se utilizadas por pessoas como os jovens da reportagem, facilitariam muito a sua ascenção social. E são mecanismos que não existem nos EUA.
No Brasil da atualidade, um jovem pobre ou muito pobre, mas empreendedor e entusiasmado terá a sua disposição, bastando procurar um pouco, muitos mecanismos que possibilitarão a ele entrar na faculdade e conseguir seu primeiro emprego sem exigência de experiência, apenas concorrendo a PROUNI's e inscrevendo-se (gratuitamente) em concursos públicos. Coisa que não existe nos EUA, onde você depende, além de ter uma competência fora do comum, da boa vontade de filantropos públicos ou privados.
Creio que a única coisa que obriga uma pessoa (com as qualidades dos jovens da reportagem) a sair do Brasil é a questão da violência e da corrupção. Um jovem que gosta de estudar, que gosta de vencer desafios impostos e sente-se valorizado ao conquistar metas realmente terá muitos problemas com a violência e com a corrupção que reinam por aqui, pois não poderá se inserir nesse meio, nem mesmo participar dele.
Esse é, a meu ver, o grande problema do Brasil. Pessoas do tipo sofrem muito com tal situação, tendo que passar por inúmeras restrições pessoais para fugir da violência e não se submeter à corrupção, ambas veladamente tão aceitas em nossa cultura.
O "sonho americano", com certeza, é mais fácil ser atingido no Brasil, mas o "sonho brasileiro" ainda está longe de ser alcançado.
quarta-feira, 27 de junho de 2012
(Poema): Frente e Costas
Vi-te de novo.
De novo tão bela.
De novo à minha frente.
De novo pertinho, e eu ausente.
Eu ausente de ti.
Você presente em mim.
Pra sempre marcada em minha retina.
Levo-te à minha frente.
Não olha pra trás.
Sai sem ver.
Sem notar que me leva consigo.
Às suas costas.
Segue-te meu olhar.
Segue-te meu desejo.
Marcados em ti se vão.
Leve-me às suas costas.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
(Devaneio): Criação
E veio-me agora um pensamento à mente, um pensamento que encheu-me de pânico e desilusão.
Se tomarmos como verdadeira a idéia criacionista, ou seja, se, de fato, a humanidade, e tudo que conhecemos, foi criado por um ser ou uma força consciente, em um dado momento e lugar, e se tomarmos como verdadeiro o relato que nos nos foi legado como a real descrição desse evento, onde, primeiramente, foi criada a luz, depois todas as outras coisas.
E, após a criação desse universo e as suas forças e suas relações, o ser ou força criadora resolveu implantar um jardim, ou um paraíso, ou um lugar muito especial. Um local aonde seria possível estabelecer sua obra-prima, um ser que lhe fosse parecido ou assemelhado em possibilidades, ou seja, uma consciência, um saber, uma determinação própria, mas sempre em potencial, pois o havia proibido de tomar conhecimento disso, no que sabemos, não foi plenamente obedecido.
Então esse ser novo e pleno de potencialidades foi colocado no dito paraíso-jardim, local diferenciado do resto de sua criação, que lhe era bela, mas amorfa. E esse ser, era, ao mesmo tempo, poderoso em possibilidades, mas de fragilíssima compleição, pois feito de pó e água. Assim, ficaria diretamente protegido pelo ser criador e seria tratado como um rebento seu, como algo que lhe saiu, e que lhe pertencia diretamente, um pedaço dele próprio que havia sido misturado ao pó e à agua.
Assim, o ser pó-água-criador foi estabelecido no paraíso-jardim.
Então, o que me aterroriza nessa alegoria? O que deixou-me com medo? Qual conclusão, além da obviedade, pode ser tirada desse quadro, para muitos, pura poesia?
Penso que, e as observações científicas até o momento corroboram tal idéia, talvez estejamos sozinhos nesse universo, ou seja, nessa imensidão aparente (pois, talvez não seja assim tão grande). Então, estamos no único lugar (pelo menos até o momento conhecido) onde podemos ficar de forma natural. Talvez não exista outro jardim natural em todo o universo conhecido. Então, todo e qualquer planeta ou lua que encontrarmos estará banhado por radiação mortal, ou pelo calor abrasador, ou pelo frio destruidor ou por gases e pressões mortificantes. Será um vazio de vida. Nada encontraremos a não ser pedras e gases. Somente o nosso paraíso-jardim foi criado para nos conter.
Assim, há muitos cientistas que, sem saber, corroboram a teoria criacionista ao advogar a tese de que não há possibilidade de encontrarmos outro planeta igual ao nosso no universo.
Assim, há muitos cientistas que, sem saber, corroboram a teoria criacionista ao advogar a tese de que não há possibilidade de encontrarmos outro planeta igual ao nosso no universo.
Tal limitação é por demais desanimadora se finalmente confirmada. A Terra seria então uma penitenciária e nós não passamos, pensando na humanidade como um corpo único, de sentenciados à prisão perpétua no âmbito de sua atmosfera.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
(Devaneio): Estático
O que posso fazer para voltar a escrever? Para retomar minha ilusão, voltar àquilo que parecia tanto comigo, à qual me fundia como uma tábua de salvação?
Ou devo buscar outra, já que minha ilha de naufrago não aparece e essa tábua já não me parece mais tão segura? Ainda não vislumbro meus coqueiros ao longe, meu pedaço de terra seca. Tenho de continuar flutuando a esmo, ao sabor das ondas, sem saber o que me aguarda além do horizonte.
E no momento é isso. Deixo-me ir, já que não há outra opção, embora sinta que já tenha passado por perto do barco de minha salvação, em um dia de intenso nevoeiro. O barco que iria trazer-me de volta à civilização. Talvez tenha passado aqui por perto e, diante de sua grandesa e de minha pequenesa, nós dois tenhamos confundido um ao outro, passando-nos despercebidos. Talvez?
Talvez o que me falte são novos olhos, diferentes desses que carrego desde o nascimento, que me levaram até onde cheguei. Olhos de um corpo diferente, olhos que buscam outra realidade, acostumados a outro tipo de luz. De uma sensibilidade diferente, que enxergam além do reflexo da luz cotidiana nos objetos, mas que intensifique o interior, arremedo de um raio-x.
Quem sabe já tenha tais olhos e, por não usá-los, estão atrofiados. Como então trazer suas imagens à minha consciência, já que o que eles apresentam nem saberia descrever? Talvez nem seja para utilizar, mas apenas usufruir. Ou então, como minha consciência poderá ir a esse lugar de mim, já que o problema talvez seja a localização?
Aquilo que está muito dentro não pode saltar para fora impunemente, sob pena de descaracterização. Então eu é que deveria ir lá, para dentro de mim, como uma estrela que condensa, até que um evento catalisador abrupto a transforma em supernova, que ao despencar dentro de si própria, expulsa violentamente tudo que lhe sobeja, ficando somente com sua raiz, que a caracteriza ao fim, única coisa que pode perpetuá-la.
Enfim, devo voltar àquilo que sei, embora não imaginasse que soubesse, mas que, quando conhecer, perceberei de imediato e direi: "Tem razão, é isso mesmo, e eu já sabia a todo momento!"
segunda-feira, 14 de maio de 2012
(Mini-Ensaio): Só o prazer será punido?
Li uma frase do Rubem Alves, na
orelha frontal de um de seus livros, que me instigou o pensamento. Não irei
dizer o nome do livro por agora, pois é uma fonte tão grande de ensinamentos, que
desejo (assumindo minha avareza em relação a isso) guarda-lo, por enquanto,
somente para mim (como se milhares de pessoas já não o conhecessem!), mesmo
porque ainda o estou lendo e me falta entende-lo e sorve-lo por completo.
Quando houver sugado sua seiva, apresentarei sua carcaça que, por se autorregenerar,
poderá ser sorvida novamente por muitos outros.
A frase assim dizia: “Será que
Deus fica feliz quando vê os seres humanos sofrendo?”
Tal pensamento resume toda uma
teologia que advogo para mim, embora, após anos de aprendizagem contrária, ainda
me vejo impossibilitado de a colocar em prática, na melhor tradução do “faça o que
eu digo, mas não faça o que eu faço”.
É isso. Ou seja, porque Deus seria feliz
com o sofrimento humano? Ou, Deus necessita de nosso sofrimento? Ou, se Deus é
amor, então o amor se alimenta de lágrimas e dores? Ou,...
Teria muitos questionamentos a fazer se
a primeira pergunta obtivesse resposta afirmativa. São indagações que nos
remete a uma imagem contraditória da divindade que sempre julgamos ser um poço
de bondades. Principalmente porque nunca associaríamos dores e sofrimentos à
ideia de bondade.
A pergunta inicial ocorre (como a
própria orelha do livro do Rubem Alves nos diz) quando observamos que, quando
desejamos ou necessitamos de algo que somente Deus nos pode conceder, sempre
prometemos em troca algo que nos é difícil, caro ou penoso fazer ou conceder,
atitude que nunca faríamos ou tentaríamos fazer em condições normais.
Ocorre que, em regras comerciais,
uma troca somente se dá quando as partes intercambiam coisas que ambas julgam de
igual intensidade de prazer ou felicidade. Então, para meu prazer e felicidade
eu compro um carro e dou em troca uma quantia monetária que proporcionará um
pequeno grau de prazer e felicidade em um grande número de pessoas (vendedor,
dono da loja, fabricante do veículo, operários que o fabrica, etc.) o qual, se somados,
equivalem ao meu prazer e felicidade ao comprar o carro. E é assim que se
operam os relacionamentos humanos legítimos (excluindo-se os de dominação pela
força, logicamente).
Então, se para nos conceder um
favor, Deus nos exige uma dor ou perda, é justo pensar que Deus se apraz disso
na mesma intensidade com que nos aprazeria receber o favor!
Os crentes e religiosos
incondicionais teriam uma simples explicação para tal. Eles apenas nos dizem que
não temos conhecimento dos verdadeiros desígnios de Deus, que não se apraz com
nosso sofrimento, mas vê muito à frente e sabe que a nossa decisão de se abster
de um prazer nos trará benefícios no futuro. Assim, sem sabermos estamos
obtendo dois benefícios com uma só atitude.
Mas, porque somente nossas
atitudes prazerosas poderiam gerar problemas futuros? Porque o abandono de algo
que já causa desconforto não poderia ser utilizado como moeda de troca?
Por exemplo, por que não “prometo
abandonar esse emprego que odeio se o Senhor me conceder a cura dessa gastrite
que tanto me incomoda”, ao invés de “prometo parar de sair às noites de sexta
com os amigos se o Senhor me conceder a cura dessa gastrite que tanto me
incomoda”?
E quem nos fez pensar que o que
nos dá prazer é profano e ruim, sempre, e somente a dor e o sofrimento nos
levam para próximo da divindade?
Penso que foram pessoas com algum grau
de psicose, pessoas com baixa autoestima e com significativo complexo de
inferioridade, mas com grande capacidade de convencimento de massas, os quais,
principalmente em momentos de carestia, conseguiram tirar seus grupos de
situações de penúria ou extermínio galopante com pensamentos e atitudes austeras,
frugais e proibitivas.
Como a humanidade passou por mais
momentos de penúria do que de fartura, é fácil saber por que a ideia do prazer
é tida como destrutiva e má, e o pensamento de austeridade é visto como
edificante e pio.
E foi tal pensamento que conduziu
a igreja Católica a instituir o seu rol de pecados, mesmo que Jesus afirmasse
que a única coisa a que nos deveríamos obrigar seria amar ao próximo como a nós
mesmos.
Esse post irá possibilitar que eu possa falar sobre esses pretensos
pecados e porque os tais talvez não devessem ser considerados tão abomináveis.
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