quarta-feira, 3 de abril de 2013

(Mini-crônica): Guta




Guta tem problemas!

Percebi isso há muito tempo. Ela tem dificuldades de lembrar acertadamente. E isso a irrita.

Não a irrita o fato de não lembrar, mas sim de acreditar que lembra (porque ela somente lembra daquilo que quer e na forma que deseja no momento, mesmo que tais desejos mudem a todo instante ) e todos desconfiarem da sua lembrança, tão clara, porém somente em sua visão.

Por exemplo, Guta combinou ontem, sábado, que viria hoje, domingo, visitar-me. Porém, entre o ontem e o hoje, há um transcurso enorme de coisas que normalmente mudam o desejo, o ânimo, a necessidade ou a urgência de tudo na cabeça dela.

Graças a isso, esqueceu da combinação. Não da promessa da visita, mas sim do fato de ser hoje. Facilmente ela transporta o compromisso para amanhã, segunda-feira, e acha claríssima tal situação. Ora, então porque estou cobrando, na noite de domingo, uma visita prometida para a segunda?

Por esse motivo, Guta se sente muito cobrada e injustiçada. Tais cobranças são o motivo de sua extrema, e por vezes violenta, irritação. Então Guta resolveu se fechar. Não que tolere as cobranças, pois as acha injustas, mas tenta ignorá-las quando e o quanto pode, o que por vezes é muito pouco de fato.

Guta não tem tempo ou desejo firme para nada, exceto jogar ou fumar, de tudo que se possa imaginar de ambos os dois.

Por seu desejo ficaria assim, a noite inteira jogando, parando por vezes para um petisco ou outro, um cigarro ou outro, até o raiar do dia, até o cansaço lhe tomar as forças, e ver-se obrigada a cair em seu local escolhido para dormir, um colchão jogado na sala.

O dia para Guta poderia ser gasto parcialmente nesse lugar, parcialmente no banheiro, parcialmente comendo mais petiscos e guloseimas, parcialmente com novas partidas on-line. Nada mais a faria feliz por esses dias.

É! Guta tem problemas!

E esse hábito desregrado e até imundo fatalmente a leva a ter dores estomacais e constantes alergias. Mas, Guta não considera que seu comportamento a leva a tais sintomas. Imputa isso à cobrança injusta pela qual é constantemente massacrada.

Guta não quer estudar. Desde há muito tempo.

Acha que isso se deve a seu próprio caráter. À sua própria personalidade. Nada a faz perceber a correlação entre o consumo da maconha e o desempenho escolar, que despencou justamente após tal hábito. Claramente há uma forte relação, ao menos é o que se observa na realidade. Mas, para Guta é justamente o contrário, como todo viciado,  gosta de defender o seu hábito e tudo que o representa. Pensa que é melhor diminuir a si mesma do que jogar a culpa em seu vício.

Guta não quer ser ajudada. Ela não compreende a origem de seus problemas. Pensa que só lhe ássarão reprimendas e uma única recomendação passar por psicanálise e parar com o vício. E não é que não esteja somente despreparada para isso. É que ela crê piamente que esse não é o seu problema. Pelo contrário, talvez até tenha sido a sua solução. Como abandonar um grande amigo que só te dá alegrias?

Guta agora terá mais problemas, ou, quem sabe, encontrará a solução de todos eles?!

É que ela inicia sua vida profissional, já que a vida estudantil foi deixada à inanição e acabou por desfalecer. Será que no âmbito de um local de trabalho Guta se sentirá estimulada a cumprir compromissos e na forma exata em que foram assumidos, e será que melhorará a sua postura e a sua higiene, e será que diminuirá a sua irritação explosiva quando cobrada, e ainda, será que diminuirá a sua fissura pelo que a vicia?

Não sei. Mas, quem a ama aposta todas as fichas nisso.






sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

(Mini-Ensaio): À nossa continuidade




Li uma citação, atribuída a George Bataille (escritor e filósofo francês, falecido em 1962). A citação (não vou dizer onde li), dizia:

"O que desejamos é trazer para um mundo fundamentalmente descontínuo toda a continuidade que ele pode sustentar."

A citação, diz-se, foi obtida da obra "L'erostime", e, como não li tal obra, não sei se essa frase foi verazmente retirada de lá, ou se a tradução pescou o sentido que o autor quis dar à coisa.

Mas, como estou escrevendo um devaneio, pesco o que quiser disso aí, e pode ser que venha um atum ou uma sardinha, mas ambos servirão para alimentar-me, em um dado momento.

Será que o autor fazia seu comentário em relação ao erotismo em sentido amplo, ou ao sexo, estritamente falando, a saber, o ato propriamento dito?

Se for assim, concordo! É isso mesmo. De fato. Ipso facto!

Sim, o erotismo, ou o sexo, é uma maneira de ligarmos as nossas partes descontínuas. Em ultima análise, a meu ver, é o único momento efetivo (e nem cogito se está sendo feito com amor ou somente por prazer, apenas penso que seja totalmente consensual e não profissional) que nos sentimos integrado a um fim comum. É um momento em que, de fato, sentimos que temos continuidade em outro ser.

Naturalmente fomos desgarrados e individualizados. No sexo não, influímos e refluímos, damos e recebemos e nos mantemos coesos por certo tempo. É a nossa tentativa de dar continuidade ao nosso mundo. 

Fugaz, com certeza, mas é a única forma material de conseguir essa continuidade.

Outras formas esotéricas de continuidade, tipo oração e meditação, são estados que muitos conseguem chegar, mas, posso dizer por experiência própria, a grande maioria não está aparelhada para tanto (aos quais me incluo). Não parece natural, ao menos no estado de matéria que nascemos (se se pode acreditar em outro estado, fica a critério de cada um). Instintivamente não temos uma antena e receptor para união por esses estados.

Mas, veio-me também à mente algo de natureza menos fundamental, ou seja, o que seria essa descontinuidade? Trata-se de uma pretensa característica discreta de nosso universo?

Ou seja, nosso mundo é discreto (ou descontinuo), e assim é absolutamente contável. Tudo que se pode ver é aquilo que há de fato. E podemos aumentar nossa percepção ao limite que continuaremos a poder quantificar o que vemos. Isso induz a uma previsibilidade de nossa vida e de nossa natureza. E a previsibilidade torna tudo muito tedioso. Nossa inteligência tende a odiar o tédio, por não a desafiar.

Mas, clamamos pela continuidade. Pelo simples contínuo. Ou seja, por coisas que não podem ser contadas, que apenas são passíveis de serem medidas, embora nunca precisamente. Enquanto tivermos a ilusão de que é impossível contar, apenas passível deduzir, podemos utilizar nossa mente para imaginar e elucubrar, e o que nos estimula, de fato.

E não é isso o objetivo dos devaneios?

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

(Devaneio): Missão



Acabei de falar contigo. Chamo e, quando me atende, fico no vazio.

Gostaria de te falar tantas coisas. Compartilhar com você algumas expectativas, algumas idéias e esperanças. Mas, tenho medo de tua reação. Medo de azedar de vez tão tênue relação.

É preferível ficar assim. Guardo para mim as esperanças, já que, de tão fugidias, passaram a ser irrealizáveis; e as idéias, tão abstratas, tão pessoalmente arraigadas à minha alma, que soam como ficção aos outros; e ainda as expectativas, não solucionáveis diante de toda essa realidade de coisas.

E parece-me que nos falta a necessária cumplicidade. Essa não temos. Apesar de toda uma vida, não construímos ou perdemos essa relação.

Chego à conclusão que a missão, que desde pequeno pensei ter nesta vida, algumas vezes tão clara, na verdade se traduz somente em uma necessária continuidade.

Ou seja, existo apenas para dar continuidade. Em um futuro distante, há aquele de mim que realizará a dita missão e, para que ele exista, precisou-se de meu elo nessa sucessão de eventos. Precisa que eu exista para um próximo passo, e outro, e outro, até a conclusão da jornada.

Sou apenas um passo.

Assim, se justifica a idéia de reencarnações sucessivas. A maioria de nós é apenas um passo. Uma pegada na areia, entre o início, onde nos foi dada a missão, e o fim, onde a realizaremos. Como no recente filme que assisti, que por aqui nominaram como "A Viagem", onde todos apenas cumpriam, sem saber, o seu papel, a fim de que, em um mundo distante, alguém pudesse estar em paz. 

E esse alguém será eu mesmo?

Não sei, mas não posso então culpar-te. Afinal, você, apesar de nossa existência mútua, e de meu amor e de minha dedicação, talvez não seja o meu parceiro nesta jornada de milênios. Talvez, o meu parceiro de missão tenha se afastado a fim de apressar nossos passos. Talvez nem precise mais esperar por tantos séculos para entregar a nossa carta.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

(Devaneio): E o sol ainda vai amanhecer


Maluquice. Acabo de sair de um sonho. Ou pesadelo? Decerto que sim!

Estava, aparentemente após longa batalha, deixando-te partir para um outro alguém!

E era tão sólida e sem volta essa partida, pois assumia que o outro era infinitamente melhor que eu, reunia em si a beleza e a esperança que encantaria qualquer mulher, sei lá, diria um Gianecchini ou um Cruise qualquer!

Que mulher não se encantaria com tal possibilidade e não me largaria?

Mas, era sobre isso que eu divagava em desespero, no sonho; era sobre a derrocada da certeza que tinha que eu me derramava.

Pois, havia tal mulher! Você própria. E havia a minha certeza absoluta sobre isso.

E eu lhe dizia que, tão certo que o sol aparecerá pela manhã, eu tinha certeza que você nunca deixaria de me amar. 

Era algo irreal de acontecer, como se, em plena avenida Paulista, eu fosse surpreendido por um leão e, estático e sem reação, fosse pego e devorado.

Dizia-lhe que, mesmo que eu não soubesse ou meditasse a respeito, também eu não me via sem amar-te. Confessava que, às vezes, em tênues momentos, até pensava que não,  poderia imaginar-me com outro amor ou pensar que necessitasse de outra paixão, para, enfim, cair em mim mesmo quanto a tal absurdo. 

Sim, pois, nós dois, éramos como cúmplices de um crime. Carregávamos esse fato. Ambos os dois. Só nós sabíamos dessa história. Nossa história. Ela nos unia. Seria insano pensar que um de nós poderia denunciar o outro, se ambos iriam à fogueira.

Dizia-lhe isso, não para convencê-la a ficar, pois parecia que tal decisão já havia sido tomada de forma irremediável. Era um prato já comido. Qualquer retorno não traria de volta a integridade da situação anterior. Seria apenas, um vômito.

Mas, dizia-lhe para conscientizar-me da nova realidade. Para assegurar-me e conformar-me do fato que haveria de viver nesse novo e tenebroso mundo sem você. Principalmente para impor à minha razão e consciência a irrealidade das verdades absolutas, o caos em que estamos imersos, onde tudo pode acontecer, até você deixar de querer-me.

E acordei-me com esse terror.

E a vi ao meu lado. Você não notou as lágrimas em meus olhos e nem em meu travesseiro molhado, mas fiz questão de acordar-te levemente e perguntar-te se ainda me amava.

Talvez, em outra realidade paralela, um outro e desgraçado eu estivesse sofrendo com a realidade de meu sonho.

Mas, aqui e agora, teu "sim, pra sempre" trouxe-me à vida e à certeza de encontrar-me no chão, e, principalmente, a alegria de saber que, pelo menos para mim, por mais um dia, o sol ainda amanhecerá.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

(Mini-Ensaio): Escolha pública




Tenho pensado nas motivações que me fazem escolher este ou aquele candidato em uma eleição. Tal como a recente eleição para prefeito.

Preocupa-me o avanço da ideia da abstenção ou do voto nulo ou branco como alternativa democrática. Tais alternativas somaram 31,6% do total de eleitores na cidade de São Paulo, por exemplo. Para mim, a abstenção é ainda mais preocupante, chegando a cerca de 20% .

Mas, o que me preocupa? 

Ora, estou a anos-luz de dizer que sou teórico ou estudioso no assunto, mas, se podemos dizer, em uma suposta  teoria da escolha pública (Buchanan?), que a escolha racional conjunta e unânime de um eleitorado tende a maximizar a utilização do bem/recurso público, da mesma forma que maximizaria a sua utilização se houvesse tal mercado competitivo, então, a possibilidade de abstenção e voto nulo/branco tende a diminuir essa eficiência. Porém, como essa unanimidade é utópica, então, grosso modo, podemos dizer que os 20% de eleitores de São Paulo, que se abstiveram, foram os que mais contribuíram para a inviabilização de tal eficiência.

Os eleitores que votaram em branco/nulo, muito embora estejam querendo dizer algo, como a falta de candidatos que possam confiar, também concorrem para  o não atingimento de uma pretensa otimização da utilização de bens/recursos públicos, pois não existe o candidato branco/nulo que proporá mudanças legais/constitucionais que influam no referido bem/recurso e em sua utilização. Assim, tais eleitores (que se abstém e que votam em branco/nulos) são, em última hipótese, a causa da ineficiência do sistema democrático brasileiro. E tal ineficiência flagrante e persistente é outro motivo de minha inquietação.

Sim, pois, em dado momento no futuro, após sucessivas eleições, principalmente eleições executivas regionais (governadores) e nacionais (presidentes), com patamares semelhantes de recusa de escolha (abstenção+nulos+brancos), somados a uma crise econômica, pode engendrar a alguém ou nalguéns argumentos de que a própria democracia não é algo tão necessário ao nosso ordenamento político, pois o próprio povo já não deseja decidir ou preferiria não ter que decidir. É, a partir daí, que surgiriam as teses favoráveis à ditadura.

Se, então, a questão é a impossibilidade da escolha desse ou daquele político e, já que sabemos que intuitiva e empiricamente falando, os políticos tendem a buscar interesses pessoais quando no governo, devemos então analisar sempre individualmente a nossa escolha. Simplificando, escolher por aquele que já nos deu ou pretende nos dar aquilo que diretamente utilizaremos de imediato ou no mais curto espaço de tempo. 

Ora, se não preciso de creche ou posto de saúde, porque escolher o político que ofereceu ou pretende oferecer majoritariamente esses serviços? Ou, se acho que o Metrô é um bom serviço, mas o investimento nele demorará dez anos para gerar utilidade efetiva, porque não escolher o candidato que pretende dar ênfase em corredores de ônibus, que geram utilidade em apenas um ano?

É isso, a saída talvez seja observar os políticos pelos nossos interesses pessoais e imediatos. E nunca se abster da escolha, pois, quanto mais perto da totalidade de eleitores disponíveis votarem e quanto mais perto da unanimidade essa escolha se focar, mais perto da utilidade ótima se fará do bem/recurso público, segundo a visão daquela comunidade/sociedade.